terça-feira, 31 de dezembro de 2024

 Dear Oprah,

Eu tenho um aluno que a empresa em que trabalha vai levá-lo com a família e mais quatro famílias para a França para morar e trabalhar lá.

Meu aluno tem uma filha de 16 anos e um filho de 11.

Se fossem morar em Paris já seria difícil, mas vão morar numa cidadezinha que tem 20 mil habitantes e como diria meu filho, provalvelmente 17 mil são velhos.

Meu aluno se vira razoavelmente bem em francês, mas a família não fala nada.

A empresa está analisando se me contrata por três meses para dar aulas para todos e eu me pego pensando "Conto a verdade para eles ou deixo viverem a experiência?"

Porque é foda.

Eles não tem noção do quanto foda pode ser mesmo falando francês.

Uma cidade que tem um cinema, nenhum shopping, a maior cidade perto fica a 35 minutos de carro ou seja, é mais rápido ir daqui até Itu do que de lá até Nantes.

Imagino as esposas a primeira vez no supermercado.

Não tem feijão e arroz muitas vezes só aqueles que vem em saquinhos individuais.

Comprar carne num lugar que os cortes são diferentes do Brasil é um tormento (para mim até hoje é) e o frango muitas vezes vem com uma penugem, sem contar os miúdos que eles colocam dentro em um saquinho plástico.

A padaria vende pães, bolos, croissants enquanto que as nossas vendem de tudo um pouco.

Leite é na cremerie ou no supermercado.

Queijos têm dos tipos mais variados, mas brasileiro só conhece muçarela, queijo de minas (que lá não existe), parmesão e gorgonzola.

Até o pó de café pode ser um problema.

Nas casas não tem tanque.

Lavar chão? Nem pensar, não vai ter onde escorrer a água.

Lavar pano de chão? Na pia da cozinha (que nojo!) ou na banheira.

Ir à feira é uma experiência legal, desde que você se contenha e não coloque a mão em nenhuma fruta e legume e saiba que algumas coisas como tomates eles vendem por libra.

Coca-cola é mais cara que vinho e cerveja, as vezes até água é mais caro que vinho.

Eu me misturava bem com a população de Chatou primeiro porque era fluente em francês, segundo porque tenho cara de europeia mesmo não sendo loira de olhos azul, e ainda assim sofri preconceito.

Das quatro famílias (sendo que eu só conheço o meu aluno), tenho quase certeza que duas voltam em um ano.

É muito, muito difícil ser imigrante.

O Patrick e a Eline têm como amigo canadense apenas a Vanessa e isso porque ela é casada com o Vitor que é brasileiro.

A Maui ainda tem a Winter, a Sandy e o Eric.

Eu sei que é pedir muito a Deus, mas eu honestamente peço que ele me leve antes de eu ficar tão velha que eles me façam ir embora do Brasil.

Aqui tem problemas, mas é a minha terra. É a minha gente. É aquilo que conheço e amo.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

 Dear Oprah,

Vendo fotos suas no aniversário da Gayle me ocorreu que o seu companheiro (marido?) raramente está com você em eventos.

Você vai ao Oscar sozinha ou vai a shows, inaugurações, festas de aniversário, sempre sem ele.

Talvez ele esteja lá e não queira ser fotografado, minha opinião é que vocês vivem vidas a parte e isso não é nenhum problema para você.

Na verdade, isso só faz que eu a admire mais.

Eu sei que você está sempre cercada de gente, que provavelmente você só permite à sua volta pessoas que a amem e respeitem e isso é louvável porque a maioria das pessoas (eu inclusive) se vende por muito pouco.

A gente implora por amor e atenção.

A gente rasteja por migalhas de amor e atenção de pessoas que não fazem a mínima ideia do que é sermos nós.

Com essa situação horrível com o Patrick eu tenho feito muitas reflexões sobre a minha vida e como diria a Marisa que trabalhou para a mamãe, "Não é pra me gambar", mas eu sou foda.

Eu sou foda porque sobrevivi a um pai que me amava de uma forma doente. Amor para ele era me dar cintadas para me "ensinar".

Um pai que me chamava de vagabunda, de inútil, que nunca me fez um elogio, mas que da maneira doente dele sei que me amava.

Um amor que machucava.

Minha mãe me amava. Era minha amiga, era minha rocha.

Ao mesmo tempo ela nunca se colocou na frente do meu pai para impedi-lo de me agredir fisicamente.

Ela desprezava a forma como eu me vestia, como eu falava alto, ria alto.

Eu não era a Barbie que ela gostaria ter como filha, mas ainda assim ela me amava e quando o Eric morreu eu não sei o que teria feito sem o amor e o apoio dela.

Aí eu começo a fazer a avaliação de amigos de infância.

A Débora por exemplo.

Deve ter sido difícil para ela estar sempre na minha sombra.

Eu brilhava.

Sem falsa modéstia aqui, eu sei que eu brilhava.

Eu era sempre a alegria da festa, eu cantava com um grupo, eu tinha caminhões de namorados.

Ela era aquela pessoa sem sal sempre por perto.

Sei que dei atenção à ela. Sempre.

E andamos juntas durante sei lá, 30/35 anos.

Mas o que eu achava que era uma grande amizade era só uma relação de toma lá, dá cá.

O mesmo hoje se aplica à Rose, à Meg, à Carmen.

Com a Tereza é diferente porque eu SEI como ela é.

Eu SEI que não posso esperar dela o que ela não tem para dar e ainda assim quando ela pode ela dá.

A Ana é aquele coração ambulante.

A Ana é aquela pessoa que se dá, se entrega, se despe de tudo pelos outros.

Eu quero ser como a Ana quando eu crescer.

O resumo da ópera é que eu sou uma pessoa muito, extremamente sozinha.

Sozinha, não solitária.

Aquele ditado do melhor andar só que em má companhia?

Eu o estendo a melhor andar só do que em companhia de pessoas que nem percebem que eu estou ali.

Hoje é véspera de Natal e eu optei por ficar sozinha.

Optei por não mentir para ninguém dizendo para um que estarei na casa do outro.

Não!

Eu disse a verdade: eu quero estar comigo.

Não quero sorrir sem vontade ou ter conversas vazias ou estar no meio de crianças que não são meus netos correndo à minha volta.

Vou fazer camarão na manteiga com alho e risoto.

Vou beber meu espumante e ler meus livros, assistir filmes e talvez chorar um pouquinho de saudade das crianças.

Não vou me corromper pelo medo da solidão.

Somos sós.

Somos sós com nossos amores, nossos pensamentos, nossos sonhos.