Dear Oprah,
Eu tenho um aluno que a empresa em que trabalha vai levá-lo com a família e mais quatro famílias para a França para morar e trabalhar lá.
Meu aluno tem uma filha de 16 anos e um filho de 11.
Se fossem morar em Paris já seria difícil, mas vão morar numa cidadezinha que tem 20 mil habitantes e como diria meu filho, provalvelmente 17 mil são velhos.
Meu aluno se vira razoavelmente bem em francês, mas a família não fala nada.
A empresa está analisando se me contrata por três meses para dar aulas para todos e eu me pego pensando "Conto a verdade para eles ou deixo viverem a experiência?"
Porque é foda.
Eles não tem noção do quanto foda pode ser mesmo falando francês.
Uma cidade que tem um cinema, nenhum shopping, a maior cidade perto fica a 35 minutos de carro ou seja, é mais rápido ir daqui até Itu do que de lá até Nantes.
Imagino as esposas a primeira vez no supermercado.
Não tem feijão e arroz muitas vezes só aqueles que vem em saquinhos individuais.
Comprar carne num lugar que os cortes são diferentes do Brasil é um tormento (para mim até hoje é) e o frango muitas vezes vem com uma penugem, sem contar os miúdos que eles colocam dentro em um saquinho plástico.
A padaria vende pães, bolos, croissants enquanto que as nossas vendem de tudo um pouco.
Leite é na cremerie ou no supermercado.
Queijos têm dos tipos mais variados, mas brasileiro só conhece muçarela, queijo de minas (que lá não existe), parmesão e gorgonzola.
Até o pó de café pode ser um problema.
Nas casas não tem tanque.
Lavar chão? Nem pensar, não vai ter onde escorrer a água.
Lavar pano de chão? Na pia da cozinha (que nojo!) ou na banheira.
Ir à feira é uma experiência legal, desde que você se contenha e não coloque a mão em nenhuma fruta e legume e saiba que algumas coisas como tomates eles vendem por libra.
Coca-cola é mais cara que vinho e cerveja, as vezes até água é mais caro que vinho.
Eu me misturava bem com a população de Chatou primeiro porque era fluente em francês, segundo porque tenho cara de europeia mesmo não sendo loira de olhos azul, e ainda assim sofri preconceito.
Das quatro famílias (sendo que eu só conheço o meu aluno), tenho quase certeza que duas voltam em um ano.
É muito, muito difícil ser imigrante.
O Patrick e a Eline têm como amigo canadense apenas a Vanessa e isso porque ela é casada com o Vitor que é brasileiro.
A Maui ainda tem a Winter, a Sandy e o Eric.
Eu sei que é pedir muito a Deus, mas eu honestamente peço que ele me leve antes de eu ficar tão velha que eles me façam ir embora do Brasil.
Aqui tem problemas, mas é a minha terra. É a minha gente. É aquilo que conheço e amo.