domingo, 5 de janeiro de 2025

 Dear Oprah,

Como eu gostaria de ter um amigo.

Um!

Um amigo de verdade!

Uma pessoa que se importasse comigo ao ponto de perceber que tem algo muito errado aqui.

Um amigo que dissesse: Gisela, não é normal uma pessoa passar dias e dias e dias sem ver ninguém, sem falar com ninguém.

Alguém que dissesse que amores e amigos de livros não valem.

Não é o fato de não ter ninguém aqui agora, é o fato de ninguém se importar.

Meus filhos não se importam.

Principalmente meu filho.

Não importa pra ele porque se a vida dele está seguindo, a minha deve estar também.

Não importa pra ninguém que eu pense em me matar 100 vezes por dia.

E só não me mato porque a perspectiva de passar por tudo isso de novo é pior do que viver.

Então, eu vivo como morta.

Se eu estiver morta aqui, ninguém vai perceber até começar a feder.

Eu decidi realmente cortar todo mundo da minha vida, já que me cortaram da vida deles.

Já que é pra ser sozinha, talvez seja melhor eu abraçar isso e viver isso até a hora que Deus decidir que deu, que eu já paguei a pena.

As pessoas têm pena dos que morrem. Os 181 daquele avião, os dos acidentes, dos que morreram jovens como o Eric.

EU vi um vídeo que o cara foi visitar uma amiga e ela estava passando por um problema muito sério e ele falou: "Mas por que você não me chamou?" e ela disse "Eu chamei." E ele vê no celular todas as vezes que ela perguntou "Quer tomar um café?"

Ele ficou chocado porque "Quer tomar um café" não é "Por favor, eu preciso de alguém."

Por que a gente tem que usar as palavras?

Por que as pessoas não conseguem perceber?

Eu percebo.

Quantas vezes eu não falei pra Tereza "Você está bem? Está muito quieta."

Ou fui até a Ana porque eu sabia que ela não estava bem.

Ou liguei pra Rose e falei que estava sentindo que ela não estava bem.

Se eu percebo, por que as pessoas não percebem?

sábado, 4 de janeiro de 2025

Dear Oprah,

Definitivamente eu tenho um problema: eu pareço aquelas largartas que formam um casulo em torno delas, só que eu nunca vou virar borboleta.

Eu não entendo o mundo, não entendo a vida.

Talvez por já ter sido tão abusada pelas pessoas, eu cheguei no estado de me isolar cada vez mais para não dar margem a que abusem mais de mim.

Hoje é aniversário da Ana Paula e ela "convida" para um churrasco na Marcela para comemorar.

Daí é aquilo: cada um leva o seu kit churrasco e sua bebida.

E, claro, é um aniversário, então a gente leva presente para a aniversariante.

Essa história de cada um leva o que vai comer e beber sempre acaba que uns poucos levam coisa boa, a maioria leva porcaria e no fim quem levou coisa boa acaba só comendo e bebendo a porcaria.

Cansei de levar vinho bom e a Meg acabar indo pra casa com meu vinho que não foi aberto.

Ou eu levo picanha e como só cupim.

Não seria mais fácil a gente combinar uma caixinha, todo mundo dá, sei lá R$50,00 e fazem uma compra?

Ah, mas a história é que a Carmen não pode entrar com R$100,00 pra ela e o Milton. Pra Meg R$50,00 é muita grana.

E ainda tem as crianças.

Criança também come e bebe.

Aí para livrar a cara a Meg leva o bolo e a garrafa de vinho que ela vai beber.

Quem gasta?

A Marcela, a Mariana, o Caio, a Ana (que também não tem mas gasta) e eu.

Cara, não dá.

Eu entendo que o legal é a reunião, é as pessoas ficarem juntas, mas se eu não bebo "Chuva de Prata", não vou levar "Chuva de Prata".

E eu levar "Chandon" e ter que ser eu a abrir é um pouco demais.

Já levei um caminhão de sorvete que colocaram no freezer e fui embora sem ver ninguém tomar sorvete.

Quer dizer, eu sei que as crianças devem ter tomado no resto da semana.

A Maui falou para eu ir nas lojas de R$1,99 e comprar presente merda, mas isso pra mim é tão difícil!

Eu sei que ela tem razão.

Quando foi do aniversário do Martin, a Ana Paula convidou a Ana Gouveia e não me convidou.

A desculpa que a Gouveia me deu é que o buffet era muito caro e por isso a Ana Paula teve que limitar o número de convidados.

Só consegui pensar no trabalho que eu tive (e dei pra Maui) pra voltar na Old Navy porque eu tinha pego o tamanho errado do presente que eu trouxe pro Martin e pro Joaquim.

E meus presentes eu gasto em dólar.

Eu trago presente, mas não sou convidada pro aniversário.

Provavelmente eu nem fosse, mas a verdade é que "Eu não fui convidada."

Quando a gente chega num ponto da vida que você só vale por aquilo que você proporciona, talvez realmente seja melhor ficar sozinha.

Sei lá, talvez minha expectativa em relação às pessoas seja alta demais.

Talvez eu tenha colocado a barra muito lá em cima.

Mas eu penso em todas as pessoas que recebi na minha casa na França, tudo o que proporcionei, muitas vezes sem poder, e dá um desanimo.

Com a minha prima Loirinha ficou a marca da noite que eles iam jantar lá em casa e eu voltei do trabalho mais cedo, fiz um jantar daqueles 5 estrelas Michelin, pra ela ligar e dizer que eles tinham andado o dia inteiro e estavam cansados demais.

Nem me dei ao trabalho de ir ao casamento do Rafael.

Também não dei presente.

O cara mora junto há 20 anos, resolve dar uma festa de casamento num lugar chique, pra mostrar pros amigos "Olha onde eu cheguei" e eu vou gastar meu dinheiro com roupa, sapato, cabelo, unha, maquiagem e transporte até SP?

A mãe dele estava muito cansada de tanto andar e não pode ir comer o meu jantar feito com tanto carinho (e gastando o que na época eu não tinha).

Acaba que a gente fica no toma lá da cá, principalmente porque a gente vê que no fundo a gente só dá.

Certas pessoas, como a Ana, eu relevo, porque ela dá muito.

Ela disse que vai levar a Carmen pra praia e não me convidou.

Se convidasse eu não iria até porque eu tenho que trabalhar.

Mas ainda assim eu fico pensando: a Ana está devendo IPTU, quer acabar a reforma da casinha embaixo do terreno e vai gastar pedágio, combustível e sei lá mais quanto para levar a Carmen para a praia porque a Carmen faz tempo que não vê o mar.

A Ana Paula passou o réveillon na praia e não levou a mãe.

Sério mesmo, a louca sou eu?



quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

 Dear Oprah,

Eu passei o Natal absolutamente sozinha e o réveillon também.

Algumas pessoas mandaram mensagens de votos pelo whatsapp, mas só a Ana realmente se importou em me perguntar como eu estava.

Isso diz mais sobre eles ou sobre mim?

Sempre acho que se eu sumir de repente as pessoas vão demorar muito para sentir a minha falta, porque talvez eu não faça falta.

Sei que se eu sumir de repente e não aparecer para dar aula nos horários combinados meus alunos vão perceber que há algo errado.

Mas eles pagam pelas aulas, né? Então é normal que esperem por algo que pagaram.

Em que momento eu me tornei invisível para meus filhos (quer dizer, um pouco menos para minha filha) e para meus amigos?

A Tereza, por exemplo, se diz minha amiga, mas se eu não vou atrás e principalmente se eu não estou de acordo com os momentos que ela tem para mim, eu não existo.

A Rose nem vale o comentário. Eu sou um pensamento que às vezes passa pela cabeça dela quando ela não tem nada melhor para fazer.

A Meg se precisar de carona lembra de mim. Não me liga. Nunca.

Idem a Carmen, que sinceramente nem faço mais questão porque não dá para conviver com Bolsonarista.

Então, eu sou só.

Nem chega mais a doer, mas é um caso de estudo.

Às vezes eu penso em estudar psicologia para entender não a mim, mas as pessoas à minha volta.

O mundo se tornou esse lugar egoísta onde só vemos aquilo que nos interessa?

Eu sou igual aos outros?

O fato de eu prefirir ficar sozinha do que me sujeitar a conversas nada a ver, música que eu não gosto, crianças correndo para todo lado, faz de mim um ET?

Minha aluna perdeu o irmão no dia 25, segundo ela de infarto, mas ele sofria de uma depressão brava.

Ela diz que vai dedicar a vida a ter contato com as pessoas porque hoje em dia todo mundo se isola e vive sua dor atrás de uma redoma.

Como a gente não vai viver a dor atrás de uma redoma se ninguém se importa genuinamente com a gente?

Quando os filhos, os pais, os conjuges não veem que a pessoa está sofrendo e se isolando?

Quando eu falo com o Patrick ele sempre age como se eu estivesse interrompendo alguma coisa, como se ele não tivesse tempo, como "Oh saco, lá vem ela ligando de novo."

Eu não vejo o Gabriel.

Não vai me espantar se o Gabriel na vida achar que só tem uma avó.

Graças a Deus com as meninas é diferente, mesmo que eu seja obrigada a pedir perdão pelo que não fiz ou rastejar e implorar, pelo menos eu vejo as meninas.

Elas sabem que têm duas avós.

Eu queria (como milhões de brasileiros) queria muito ter ganhado na loteria porque eu ia usar meu dinheiro para fazer uma pesquisa de campo.

Ficar quieta, proporcionar presentes inesperados a algumas pessoas e ver a reação e depois sumir.

Sumir! Desaparecer!

Na verdade, acho que eu só ia sumir mesmo.

Não ia fazer diferença para muita gente.