Dear Oprah,
Definitivamente eu tenho um problema: eu pareço aquelas largartas que formam um casulo em torno delas, só que eu nunca vou virar borboleta.
Eu não entendo o mundo, não entendo a vida.
Talvez por já ter sido tão abusada pelas pessoas, eu cheguei no estado de me isolar cada vez mais para não dar margem a que abusem mais de mim.
Hoje é aniversário da Ana Paula e ela "convida" para um churrasco na Marcela para comemorar.
Daí é aquilo: cada um leva o seu kit churrasco e sua bebida.
E, claro, é um aniversário, então a gente leva presente para a aniversariante.
Essa história de cada um leva o que vai comer e beber sempre acaba que uns poucos levam coisa boa, a maioria leva porcaria e no fim quem levou coisa boa acaba só comendo e bebendo a porcaria.
Cansei de levar vinho bom e a Meg acabar indo pra casa com meu vinho que não foi aberto.
Ou eu levo picanha e como só cupim.
Não seria mais fácil a gente combinar uma caixinha, todo mundo dá, sei lá R$50,00 e fazem uma compra?
Ah, mas a história é que a Carmen não pode entrar com R$100,00 pra ela e o Milton. Pra Meg R$50,00 é muita grana.
E ainda tem as crianças.
Criança também come e bebe.
Aí para livrar a cara a Meg leva o bolo e a garrafa de vinho que ela vai beber.
Quem gasta?
A Marcela, a Mariana, o Caio, a Ana (que também não tem mas gasta) e eu.
Cara, não dá.
Eu entendo que o legal é a reunião, é as pessoas ficarem juntas, mas se eu não bebo "Chuva de Prata", não vou levar "Chuva de Prata".
E eu levar "Chandon" e ter que ser eu a abrir é um pouco demais.
Já levei um caminhão de sorvete que colocaram no freezer e fui embora sem ver ninguém tomar sorvete.
Quer dizer, eu sei que as crianças devem ter tomado no resto da semana.
A Maui falou para eu ir nas lojas de R$1,99 e comprar presente merda, mas isso pra mim é tão difícil!
Eu sei que ela tem razão.
Quando foi do aniversário do Martin, a Ana Paula convidou a Ana Gouveia e não me convidou.
A desculpa que a Gouveia me deu é que o buffet era muito caro e por isso a Ana Paula teve que limitar o número de convidados.
Só consegui pensar no trabalho que eu tive (e dei pra Maui) pra voltar na Old Navy porque eu tinha pego o tamanho errado do presente que eu trouxe pro Martin e pro Joaquim.
E meus presentes eu gasto em dólar.
Eu trago presente, mas não sou convidada pro aniversário.
Provavelmente eu nem fosse, mas a verdade é que "Eu não fui convidada."
Quando a gente chega num ponto da vida que você só vale por aquilo que você proporciona, talvez realmente seja melhor ficar sozinha.
Sei lá, talvez minha expectativa em relação às pessoas seja alta demais.
Talvez eu tenha colocado a barra muito lá em cima.
Mas eu penso em todas as pessoas que recebi na minha casa na França, tudo o que proporcionei, muitas vezes sem poder, e dá um desanimo.
Com a minha prima Loirinha ficou a marca da noite que eles iam jantar lá em casa e eu voltei do trabalho mais cedo, fiz um jantar daqueles 5 estrelas Michelin, pra ela ligar e dizer que eles tinham andado o dia inteiro e estavam cansados demais.
Nem me dei ao trabalho de ir ao casamento do Rafael.
Também não dei presente.
O cara mora junto há 20 anos, resolve dar uma festa de casamento num lugar chique, pra mostrar pros amigos "Olha onde eu cheguei" e eu vou gastar meu dinheiro com roupa, sapato, cabelo, unha, maquiagem e transporte até SP?
A mãe dele estava muito cansada de tanto andar e não pode ir comer o meu jantar feito com tanto carinho (e gastando o que na época eu não tinha).
Acaba que a gente fica no toma lá da cá, principalmente porque a gente vê que no fundo a gente só dá.
Certas pessoas, como a Ana, eu relevo, porque ela dá muito.
Ela disse que vai levar a Carmen pra praia e não me convidou.
Se convidasse eu não iria até porque eu tenho que trabalhar.
Mas ainda assim eu fico pensando: a Ana está devendo IPTU, quer acabar a reforma da casinha embaixo do terreno e vai gastar pedágio, combustível e sei lá mais quanto para levar a Carmen para a praia porque a Carmen faz tempo que não vê o mar.
A Ana Paula passou o réveillon na praia e não levou a mãe.
Sério mesmo, a louca sou eu?
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