quinta-feira, 20 de março de 2025

 Eu sou grata por ter um teto e uma cama e comida e amigos.

Sou grata pelos meus alunos,

Sou grata pelas traduções.

Sou grata por ter dinheiro para pagar a obra.

SOu grata porque vou tirar férias em maio.

Sou grata porque meu computador funciona.

Sou grata por poder ter médicos que me atendem.

Estou com problemas agora, mas eles vão se resolver e sou grata por isso também.

domingo, 5 de janeiro de 2025

 Dear Oprah,

Como eu gostaria de ter um amigo.

Um!

Um amigo de verdade!

Uma pessoa que se importasse comigo ao ponto de perceber que tem algo muito errado aqui.

Um amigo que dissesse: Gisela, não é normal uma pessoa passar dias e dias e dias sem ver ninguém, sem falar com ninguém.

Alguém que dissesse que amores e amigos de livros não valem.

Não é o fato de não ter ninguém aqui agora, é o fato de ninguém se importar.

Meus filhos não se importam.

Principalmente meu filho.

Não importa pra ele porque se a vida dele está seguindo, a minha deve estar também.

Não importa pra ninguém que eu pense em me matar 100 vezes por dia.

E só não me mato porque a perspectiva de passar por tudo isso de novo é pior do que viver.

Então, eu vivo como morta.

Se eu estiver morta aqui, ninguém vai perceber até começar a feder.

Eu decidi realmente cortar todo mundo da minha vida, já que me cortaram da vida deles.

Já que é pra ser sozinha, talvez seja melhor eu abraçar isso e viver isso até a hora que Deus decidir que deu, que eu já paguei a pena.

As pessoas têm pena dos que morrem. Os 181 daquele avião, os dos acidentes, dos que morreram jovens como o Eric.

EU vi um vídeo que o cara foi visitar uma amiga e ela estava passando por um problema muito sério e ele falou: "Mas por que você não me chamou?" e ela disse "Eu chamei." E ele vê no celular todas as vezes que ela perguntou "Quer tomar um café?"

Ele ficou chocado porque "Quer tomar um café" não é "Por favor, eu preciso de alguém."

Por que a gente tem que usar as palavras?

Por que as pessoas não conseguem perceber?

Eu percebo.

Quantas vezes eu não falei pra Tereza "Você está bem? Está muito quieta."

Ou fui até a Ana porque eu sabia que ela não estava bem.

Ou liguei pra Rose e falei que estava sentindo que ela não estava bem.

Se eu percebo, por que as pessoas não percebem?

sábado, 4 de janeiro de 2025

Dear Oprah,

Definitivamente eu tenho um problema: eu pareço aquelas largartas que formam um casulo em torno delas, só que eu nunca vou virar borboleta.

Eu não entendo o mundo, não entendo a vida.

Talvez por já ter sido tão abusada pelas pessoas, eu cheguei no estado de me isolar cada vez mais para não dar margem a que abusem mais de mim.

Hoje é aniversário da Ana Paula e ela "convida" para um churrasco na Marcela para comemorar.

Daí é aquilo: cada um leva o seu kit churrasco e sua bebida.

E, claro, é um aniversário, então a gente leva presente para a aniversariante.

Essa história de cada um leva o que vai comer e beber sempre acaba que uns poucos levam coisa boa, a maioria leva porcaria e no fim quem levou coisa boa acaba só comendo e bebendo a porcaria.

Cansei de levar vinho bom e a Meg acabar indo pra casa com meu vinho que não foi aberto.

Ou eu levo picanha e como só cupim.

Não seria mais fácil a gente combinar uma caixinha, todo mundo dá, sei lá R$50,00 e fazem uma compra?

Ah, mas a história é que a Carmen não pode entrar com R$100,00 pra ela e o Milton. Pra Meg R$50,00 é muita grana.

E ainda tem as crianças.

Criança também come e bebe.

Aí para livrar a cara a Meg leva o bolo e a garrafa de vinho que ela vai beber.

Quem gasta?

A Marcela, a Mariana, o Caio, a Ana (que também não tem mas gasta) e eu.

Cara, não dá.

Eu entendo que o legal é a reunião, é as pessoas ficarem juntas, mas se eu não bebo "Chuva de Prata", não vou levar "Chuva de Prata".

E eu levar "Chandon" e ter que ser eu a abrir é um pouco demais.

Já levei um caminhão de sorvete que colocaram no freezer e fui embora sem ver ninguém tomar sorvete.

Quer dizer, eu sei que as crianças devem ter tomado no resto da semana.

A Maui falou para eu ir nas lojas de R$1,99 e comprar presente merda, mas isso pra mim é tão difícil!

Eu sei que ela tem razão.

Quando foi do aniversário do Martin, a Ana Paula convidou a Ana Gouveia e não me convidou.

A desculpa que a Gouveia me deu é que o buffet era muito caro e por isso a Ana Paula teve que limitar o número de convidados.

Só consegui pensar no trabalho que eu tive (e dei pra Maui) pra voltar na Old Navy porque eu tinha pego o tamanho errado do presente que eu trouxe pro Martin e pro Joaquim.

E meus presentes eu gasto em dólar.

Eu trago presente, mas não sou convidada pro aniversário.

Provavelmente eu nem fosse, mas a verdade é que "Eu não fui convidada."

Quando a gente chega num ponto da vida que você só vale por aquilo que você proporciona, talvez realmente seja melhor ficar sozinha.

Sei lá, talvez minha expectativa em relação às pessoas seja alta demais.

Talvez eu tenha colocado a barra muito lá em cima.

Mas eu penso em todas as pessoas que recebi na minha casa na França, tudo o que proporcionei, muitas vezes sem poder, e dá um desanimo.

Com a minha prima Loirinha ficou a marca da noite que eles iam jantar lá em casa e eu voltei do trabalho mais cedo, fiz um jantar daqueles 5 estrelas Michelin, pra ela ligar e dizer que eles tinham andado o dia inteiro e estavam cansados demais.

Nem me dei ao trabalho de ir ao casamento do Rafael.

Também não dei presente.

O cara mora junto há 20 anos, resolve dar uma festa de casamento num lugar chique, pra mostrar pros amigos "Olha onde eu cheguei" e eu vou gastar meu dinheiro com roupa, sapato, cabelo, unha, maquiagem e transporte até SP?

A mãe dele estava muito cansada de tanto andar e não pode ir comer o meu jantar feito com tanto carinho (e gastando o que na época eu não tinha).

Acaba que a gente fica no toma lá da cá, principalmente porque a gente vê que no fundo a gente só dá.

Certas pessoas, como a Ana, eu relevo, porque ela dá muito.

Ela disse que vai levar a Carmen pra praia e não me convidou.

Se convidasse eu não iria até porque eu tenho que trabalhar.

Mas ainda assim eu fico pensando: a Ana está devendo IPTU, quer acabar a reforma da casinha embaixo do terreno e vai gastar pedágio, combustível e sei lá mais quanto para levar a Carmen para a praia porque a Carmen faz tempo que não vê o mar.

A Ana Paula passou o réveillon na praia e não levou a mãe.

Sério mesmo, a louca sou eu?



quarta-feira, 1 de janeiro de 2025

 Dear Oprah,

Eu passei o Natal absolutamente sozinha e o réveillon também.

Algumas pessoas mandaram mensagens de votos pelo whatsapp, mas só a Ana realmente se importou em me perguntar como eu estava.

Isso diz mais sobre eles ou sobre mim?

Sempre acho que se eu sumir de repente as pessoas vão demorar muito para sentir a minha falta, porque talvez eu não faça falta.

Sei que se eu sumir de repente e não aparecer para dar aula nos horários combinados meus alunos vão perceber que há algo errado.

Mas eles pagam pelas aulas, né? Então é normal que esperem por algo que pagaram.

Em que momento eu me tornei invisível para meus filhos (quer dizer, um pouco menos para minha filha) e para meus amigos?

A Tereza, por exemplo, se diz minha amiga, mas se eu não vou atrás e principalmente se eu não estou de acordo com os momentos que ela tem para mim, eu não existo.

A Rose nem vale o comentário. Eu sou um pensamento que às vezes passa pela cabeça dela quando ela não tem nada melhor para fazer.

A Meg se precisar de carona lembra de mim. Não me liga. Nunca.

Idem a Carmen, que sinceramente nem faço mais questão porque não dá para conviver com Bolsonarista.

Então, eu sou só.

Nem chega mais a doer, mas é um caso de estudo.

Às vezes eu penso em estudar psicologia para entender não a mim, mas as pessoas à minha volta.

O mundo se tornou esse lugar egoísta onde só vemos aquilo que nos interessa?

Eu sou igual aos outros?

O fato de eu prefirir ficar sozinha do que me sujeitar a conversas nada a ver, música que eu não gosto, crianças correndo para todo lado, faz de mim um ET?

Minha aluna perdeu o irmão no dia 25, segundo ela de infarto, mas ele sofria de uma depressão brava.

Ela diz que vai dedicar a vida a ter contato com as pessoas porque hoje em dia todo mundo se isola e vive sua dor atrás de uma redoma.

Como a gente não vai viver a dor atrás de uma redoma se ninguém se importa genuinamente com a gente?

Quando os filhos, os pais, os conjuges não veem que a pessoa está sofrendo e se isolando?

Quando eu falo com o Patrick ele sempre age como se eu estivesse interrompendo alguma coisa, como se ele não tivesse tempo, como "Oh saco, lá vem ela ligando de novo."

Eu não vejo o Gabriel.

Não vai me espantar se o Gabriel na vida achar que só tem uma avó.

Graças a Deus com as meninas é diferente, mesmo que eu seja obrigada a pedir perdão pelo que não fiz ou rastejar e implorar, pelo menos eu vejo as meninas.

Elas sabem que têm duas avós.

Eu queria (como milhões de brasileiros) queria muito ter ganhado na loteria porque eu ia usar meu dinheiro para fazer uma pesquisa de campo.

Ficar quieta, proporcionar presentes inesperados a algumas pessoas e ver a reação e depois sumir.

Sumir! Desaparecer!

Na verdade, acho que eu só ia sumir mesmo.

Não ia fazer diferença para muita gente.

terça-feira, 31 de dezembro de 2024

 Dear Oprah,

Eu tenho um aluno que a empresa em que trabalha vai levá-lo com a família e mais quatro famílias para a França para morar e trabalhar lá.

Meu aluno tem uma filha de 16 anos e um filho de 11.

Se fossem morar em Paris já seria difícil, mas vão morar numa cidadezinha que tem 20 mil habitantes e como diria meu filho, provalvelmente 17 mil são velhos.

Meu aluno se vira razoavelmente bem em francês, mas a família não fala nada.

A empresa está analisando se me contrata por três meses para dar aulas para todos e eu me pego pensando "Conto a verdade para eles ou deixo viverem a experiência?"

Porque é foda.

Eles não tem noção do quanto foda pode ser mesmo falando francês.

Uma cidade que tem um cinema, nenhum shopping, a maior cidade perto fica a 35 minutos de carro ou seja, é mais rápido ir daqui até Itu do que de lá até Nantes.

Imagino as esposas a primeira vez no supermercado.

Não tem feijão e arroz muitas vezes só aqueles que vem em saquinhos individuais.

Comprar carne num lugar que os cortes são diferentes do Brasil é um tormento (para mim até hoje é) e o frango muitas vezes vem com uma penugem, sem contar os miúdos que eles colocam dentro em um saquinho plástico.

A padaria vende pães, bolos, croissants enquanto que as nossas vendem de tudo um pouco.

Leite é na cremerie ou no supermercado.

Queijos têm dos tipos mais variados, mas brasileiro só conhece muçarela, queijo de minas (que lá não existe), parmesão e gorgonzola.

Até o pó de café pode ser um problema.

Nas casas não tem tanque.

Lavar chão? Nem pensar, não vai ter onde escorrer a água.

Lavar pano de chão? Na pia da cozinha (que nojo!) ou na banheira.

Ir à feira é uma experiência legal, desde que você se contenha e não coloque a mão em nenhuma fruta e legume e saiba que algumas coisas como tomates eles vendem por libra.

Coca-cola é mais cara que vinho e cerveja, as vezes até água é mais caro que vinho.

Eu me misturava bem com a população de Chatou primeiro porque era fluente em francês, segundo porque tenho cara de europeia mesmo não sendo loira de olhos azul, e ainda assim sofri preconceito.

Das quatro famílias (sendo que eu só conheço o meu aluno), tenho quase certeza que duas voltam em um ano.

É muito, muito difícil ser imigrante.

O Patrick e a Eline têm como amigo canadense apenas a Vanessa e isso porque ela é casada com o Vitor que é brasileiro.

A Maui ainda tem a Winter, a Sandy e o Eric.

Eu sei que é pedir muito a Deus, mas eu honestamente peço que ele me leve antes de eu ficar tão velha que eles me façam ir embora do Brasil.

Aqui tem problemas, mas é a minha terra. É a minha gente. É aquilo que conheço e amo.


terça-feira, 24 de dezembro de 2024

 Dear Oprah,

Vendo fotos suas no aniversário da Gayle me ocorreu que o seu companheiro (marido?) raramente está com você em eventos.

Você vai ao Oscar sozinha ou vai a shows, inaugurações, festas de aniversário, sempre sem ele.

Talvez ele esteja lá e não queira ser fotografado, minha opinião é que vocês vivem vidas a parte e isso não é nenhum problema para você.

Na verdade, isso só faz que eu a admire mais.

Eu sei que você está sempre cercada de gente, que provavelmente você só permite à sua volta pessoas que a amem e respeitem e isso é louvável porque a maioria das pessoas (eu inclusive) se vende por muito pouco.

A gente implora por amor e atenção.

A gente rasteja por migalhas de amor e atenção de pessoas que não fazem a mínima ideia do que é sermos nós.

Com essa situação horrível com o Patrick eu tenho feito muitas reflexões sobre a minha vida e como diria a Marisa que trabalhou para a mamãe, "Não é pra me gambar", mas eu sou foda.

Eu sou foda porque sobrevivi a um pai que me amava de uma forma doente. Amor para ele era me dar cintadas para me "ensinar".

Um pai que me chamava de vagabunda, de inútil, que nunca me fez um elogio, mas que da maneira doente dele sei que me amava.

Um amor que machucava.

Minha mãe me amava. Era minha amiga, era minha rocha.

Ao mesmo tempo ela nunca se colocou na frente do meu pai para impedi-lo de me agredir fisicamente.

Ela desprezava a forma como eu me vestia, como eu falava alto, ria alto.

Eu não era a Barbie que ela gostaria ter como filha, mas ainda assim ela me amava e quando o Eric morreu eu não sei o que teria feito sem o amor e o apoio dela.

Aí eu começo a fazer a avaliação de amigos de infância.

A Débora por exemplo.

Deve ter sido difícil para ela estar sempre na minha sombra.

Eu brilhava.

Sem falsa modéstia aqui, eu sei que eu brilhava.

Eu era sempre a alegria da festa, eu cantava com um grupo, eu tinha caminhões de namorados.

Ela era aquela pessoa sem sal sempre por perto.

Sei que dei atenção à ela. Sempre.

E andamos juntas durante sei lá, 30/35 anos.

Mas o que eu achava que era uma grande amizade era só uma relação de toma lá, dá cá.

O mesmo hoje se aplica à Rose, à Meg, à Carmen.

Com a Tereza é diferente porque eu SEI como ela é.

Eu SEI que não posso esperar dela o que ela não tem para dar e ainda assim quando ela pode ela dá.

A Ana é aquele coração ambulante.

A Ana é aquela pessoa que se dá, se entrega, se despe de tudo pelos outros.

Eu quero ser como a Ana quando eu crescer.

O resumo da ópera é que eu sou uma pessoa muito, extremamente sozinha.

Sozinha, não solitária.

Aquele ditado do melhor andar só que em má companhia?

Eu o estendo a melhor andar só do que em companhia de pessoas que nem percebem que eu estou ali.

Hoje é véspera de Natal e eu optei por ficar sozinha.

Optei por não mentir para ninguém dizendo para um que estarei na casa do outro.

Não!

Eu disse a verdade: eu quero estar comigo.

Não quero sorrir sem vontade ou ter conversas vazias ou estar no meio de crianças que não são meus netos correndo à minha volta.

Vou fazer camarão na manteiga com alho e risoto.

Vou beber meu espumante e ler meus livros, assistir filmes e talvez chorar um pouquinho de saudade das crianças.

Não vou me corromper pelo medo da solidão.

Somos sós.

Somos sós com nossos amores, nossos pensamentos, nossos sonhos.


quarta-feira, 27 de novembro de 2024

 Dear Oprah,

I wish I could understand how things develop in life, but I don't.

2024 has been a interesting year.

I had to reinvent myself. Again.

I've done that so many times in my life that I believe I was born kind of 30 times.

It isn't enough being me, I have to be the mother, the grandmother, the sister, the friend, the translator, the teacher, the therapist, the listener.

So many "mes" to show to the world almost everyday.

Some days, like today, I wish I could just lie in my bed and not intereact with the world, but it's impossible.

I have classes to give.